
Escrito por Karla Lima às 14h57
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FAROESTE FANTÁSTICO
Ato 1
Um buraco e, à frente, três homens a cavá-lo.
Nenhum apeia? Não, nenhum a pé ia.
Eu-crina-amassada, apresentou-se o índio.
Cri na maçada. E devolvi: eu Bóia-de-Hiro.
Ele: um real nome boiadeiro!
(O buraco não progride. Vão espairecer.)
Ato 2
Um vai, de rédea, ambular
Outro vai, de ré, deambular.
O primeiro perde a sela e volta a pêlo.
O segundo nem ouviu seu apelo.
Final
(Retornam, abatidos.)
Afinal, o que iam no buraco enterrar?
A rês posta de lado.
Escrito por Karla Lima às 14h56
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CRIANÇA DE RUA
Que as crianças de rua constituem um problema social comum a muitas grandes cidades, ninguém há de discordar. Sua existência nos atira à cara, esquina sim, viaduto também, a pobreza de dinheiro e de perspectivas; a miséria de infra-estrutura e de solidariedade; a exclusão do mercado de trabalho e de inserção social.
Até os nove anos ou um metro e quarenta, o que chegar primeiro, fazem mais trocados que seus irmãos mais velhos e parentes adultos em geral. A partir daí o quadro se agrava ano após ano: as meninas, com seios incipientes estufando a blusa, estão sujeitas a todo tipo de violência sexual, e hão de parir ainda antes dos quinze por abuso ou ignorância; os rapazes, conforme se lhes engrossam as penugens na cara e pernas, nem conseguem articular o pedido: os vidros se fecharam muito antes que o motorista parasse completamente no sinal.
De uma infância pedinte resultará, com grande probabilidade, um adulto marginal por sua vez também reprodutor de rebentos indigentes. A mendicância, e não vai aqui nenhuma ironia, pode ser hereditária.
Como interromper esse vício (que antes fosse circular, pois encerrado em si mesmo faria menores estragos; mas que, infelizmente, é contínuo e previsível como uma reta)? Ora, da mesma maneira como se interrompe qualquer traço hereditário: evitando que o portador do mal original gere descendentes. As crianças de rua, portanto, são um problema anterior a si mesmas, cuja solução tanto passa pelo remédio quanto pela vacina. No aspecto correcional, há que se universalizar a educação, a moradia, a possibilidade de trabalho. Pelo lado preventivo, urge que sejam implantadas políticas públicas de planejamento familiar.
Não é cruel nem cínico, e aqui me atrevo a pressupor e rebater os argumentos contrários: desumano é continuar permitindo que se multipliquem como moscas pessoas fadadas a viver exatamente como elas.
Escrito por Karla Lima às 14h09
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Onda vazia que avança sem rumo certo é vaga três vezes.
Escrito por Karla Lima às 18h43
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Era um poeta concreto.
Seu gato se chamava Gato, seu cachorro se chamava Cão.
Na parte interna do punho esquerdo, tinha tatuado ‘pulso’.
Ela soube que ele havia se matado quando recebeu um telegrama em que se lia: ‘não mais’.
Escrito por Karla Lima às 01h54
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O rapaz comprou um esmeril, pintou uma placa caprichada e inaugurou seu próprio negócio: "AMOLO ALICATES".
O vizinho, gozador, logo abriu concorrência com uma versão incrementada da mesma prestação de serviço: "ENERVO CUTELOS, ABORREÇO FACÕES E IRRITO TESOURAS".
Escrito por Karla Lima às 02h11
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Quando publiquei o texto abaixo, faltava-me uma informação fundamental de que, infelizmente, só tomei conhecimento hoje.
Espero que me sirva de lição: uma estudante de Jornalismo deveria reunir muitos mais dados do que eu fiz, antes de opinar sobre o que quer que seja – ainda que num blog.
A informação é esta: os dinamarqueses são xenófobos à beça!
Na página A12 da Folha de S. Paulo de hoje, está a reprodução de um texto originalmente publicado no Le Monde por Olivier Truc, no qual nos ensina que, desde a década de 90, a política nacional da Dinamarca é pautada pelo Partido do Povo Dinamarquês, em cujo programa lê-se: "O Partido do Povo Dinamarquês não aceita que a Dinamarca se transforme em uma sociedade multiétnica."
Assim, embora continue defendendo a publicação da charge sob os mesmos argumentos listados anteriormente, sinto-me envergonhada de não ter feito essa ressalva: a publicação do que quer que seja é permitida, desde que a inteção do autor não seja, prévia e deliberadamente, agredir. Poesia, cartunismo, discurso oral, artigo opinativo, propaganda e todas as outras modalidades de registro comunicacional podem ser divergentes, antagônicas, provocadoras e discordantes. Disso se alimenta a troca de idéias e, em alguns casos, a evolução da humanidade. Mas nenhuma pode ser instrumento consciente de eugenia!
Rodolpho: devo um pedido oficial de desculpas a você – que morou lá e tentou me alertar...
Escrito por Karla Lima às 17h01
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Muito tempo atrás, um chefe me demitiu sob a alegação de que eu fazia com que as pessoas se sentissem burras.
Primeiro, achei uma graça irresistível naquele elogio travestido de crítica. Passados seis anos, concluo que não tenho mesmo jeito com quem perde meia hora todas as manhãs, e passa o resto do dia procurando.
Escrito por Karla Lima às 01h34
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As boas idéias entram pelo nariz.
Naturalmente não é coincidência o fato de "inalar" e "ter idéias valiosas" responderem ambos pelo nome de INSPIRAÇÃO.
Mas é claro que todo mundo sabe disso – desculpem a obviedade do registro.

Escrito por Karla Lima às 00h34
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Enquanto, ao debate de idéias de um lado, houver do outro o risco de uma reação física – ou seja, enquanto em resposta à palavra houver possibilidade de atitude agressiva – estamos fadados a nos calar diante da intransigência. E não só religiosa.
Milito pela liberdade de expressão e acho que são legítimas todas as sátiras, incluindo as que me atingem pessoalmente. Qualquer traço de voltairismo não é mera coincidência.
Embora considere de mau gosto, defendo o direito à existência de piadas sobre anões judeus, portugueses mancos, negros gagos, sapatonas vingativas, deficientes mentais que babam. Assim como, arriscando-me à rejeição do interlocutor, acredito no meu direito de fazer chacota de astrólogos, fashion victims, consumistas desenfreados, peruas que escrevem poesia e hare krishnas expansionistas.
Sou favorável à publicação da polêmica charge e acho que, ao tornarmos a religião um assunto humoristicamente intocável, estamos nos curvando ao fanatismo, reforçando a intolerância e legitimando o silêncio que nos querem impor os dogmáticos.
Como, infelizmente, a quem faltam argumentos sobram ignorância e valentia, caminhamos para uma situação em que fica intimidada qualquer expressão de opinião divergente.
Ameaçados de captura violenta, tortura bárbara e morte súbita, os discordantes silenciamos – e, igualmente grave, contribuímos para a diminuição da troca de idéias e com a morte do humor.
Escrito por Karla Lima às 20h22
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Aprendi com muito custo a suportar apresentações em que a moça dizia "sou modelo e atriz".
Ainda não sei como sobreviver a uma boca esticada (por plástica e pelo movimento ameaçador de me beijar) dizendo "sou astróloga e faço poesia".
Escrito por Karla Lima às 14h17
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E mal sustentada por um prego dizia a placa pendurada na fachada da modesta borracharia do matuto:
"Recabela-se pneus".
Escrito por Karla Lima às 01h52
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O máximo de felicidade para o maior número possível de pessoas é uma definição razoavelmente unânime para 'sociedade civilizada'.
Daí eu pergunto: o que acontece ao pobre bode expiatório cujo linchamento público provê a tal felicidade à tal massa?
Daí eu respondo: a redução da consciência e ética coletivas a uma equação matemática, em que a maioria sai vitoriosa na maioria das questões, deixa as minorias vulneráveis a todo tipo de horrores, dos quais a discriminação é apenas a menor parte.

Escrito por Karla Lima às 00h45
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Se Kierkgaard está correto sobre a vida apenas poder ser vivida para a frente, e apenas poder ser compreendida em retrospectiva – então, se eu girar 180º sobre os calcanhares, e tiver nas mãos um espelho, fica tudo compreendido? Estarei de frente para o passado, porém contemplando (e com sorte compreendendo) o futuro?
Escrito por Karla Lima às 22h36
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Irrita-me a fraqueza, personificada naquela pessoa tão hesitante em quem até os gestos são gagos...
Escrito por Karla Lima às 22h36
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A verdade é que tenho tão pouca identificação com os outros que nem sequer bocejo em reflexo ao bocejo alheio, como sói ocorrer com o que habitualmente se chama 'todo mundo'.
É certo que isso gera uma sensação de isolamento mas, anyway, eu nunca quis ser 'todo mundo' mesmo!
Escrito por Karla Lima às 22h36
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Sua transpiração fedia muito, e a grande distância já anunciava sua aproximação. Por isso, diz-se, ele não suava – de fato, ele soava, mesmo.
Escrito por Karla Lima às 22h36
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Você acha que Batalhão das Drag Queens é apenas o outro nome da Polícia Montada?
Escrito por Karla Lima às 22h36
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